Telepatia
Extravio
Voltei a conversar com meus amigos. Ainda meio sem jeito. Na dança difícil, por esquecida, da fala e da escuta. Saio da caverna em que me meti e agora sei com uma clareza fulminante. Sem isso, perco a alegria. Ela escapole entre os dedos cerrados, bicho arisco que é. Já vai longe. Ouço as touceiras do quintal mexidas. Cócegas ou espanto. Fico com as palmas das mãos nuas. Decifro nas linhas que as cruzam só uma palavra: Tédio. Um inexplicável neon vermelho sob a noite em blecaute total. Calado, ando cabisbaixo, tropeço nas próprias pernas, me assusto com minha sombra gingante. Me vejo refletido numa vidraça de uma farmácia do outro lado da rua. Aceno, tímido. Retribuo, tímido. No fim das contas, não me dou bem comigo. Pouco se permite à invenção sem a panóplia conturbada das audiovisões dos outros. Motor que nos leva pra mais longe de nós. E é nesse momento que nos assalta uma certeza: Ninguém se aguenta. (Exceto os distraídos.) Sempre foi assim. Até que veio a amizade pra apaziguar nossa descomunal chatice. Lembro das vozes, da fumaça que sopram na minha cara, das risadas de meu amigos. A prova da partilha das nuvens-de-nada que nos povoam. Atormentado por suas ausências, fico perdido numa encruzilhada que pare outras encruzilhadas que me lançam à paralisia. Entre os dedos, um cigarro aceso daqueles que fingem estar pensando mas só não sabem aonde ir. Vejo exatamente a expressão de baratino na cara que a janela de um carro parado na rua me devolve. O sinal abre e me despeço de mim com alívio. Volto a fugir de mim. Dessa vez, pelo hábito da telepatia. Uma telepatia inábil. Fadada ao extravio. As mensagens se perdem nas caixas de correios de casas abandonadas, entre montes de contas e propagandas de supermercado. Ou voltam ao depósito melancólico dos sem destinatários. Geralmente. Entre uma leitura e outra, levanto a cabeça e pergunto a alguém muito longe daqui o que achou. A memória me devolve a voz, um gesto, um cheiro. A imaginação preenche as lacunas da figura que, indiferente a minhas fabulações, deve estar entrando num metrô a 2.500km daqui preocupada com os boletos e um amor difícil. Fico com uma resposta provisória, mas verossímil, e me esforço por me surpreender. Depois, no fim de semana, quando o emaranhado de mesquinharias das rotinas se atenuar um pouco, ligo pra saber o que ela achou. Não vou falar da longa conversa encenada pra evitar preocupações. Com certeza, também pratica alguma telepatia de extravio. Conversa consigo, com outros, com fantasmas e bichos, como eu, pra que o silêncio não a devore. Vai dizer o mesmo Alô de sempre, mas nunca acerto que o vai dizer a seguir. Aí sim, de surpresa em surpresa, se transforma, me transforma, e continuamos, palavra após palavra, aumentados em vários e nunca prontos. E continuamos porque, diferente de nós, a conversa não tem fim.


