Um livro
Perto daqui
Quis escrever claro. Desde que comecei a jogar com palavra, me recusei ao que me parecia uma concessão traiçoeira. A palavra fácil, boa por familiar. Um passeio sobre o piso polido pela sola de nossos sapatos. Alegria fria do hábito. Pra mim, a própria derrota que ri. A meta: quanto mais, mais. O texto-enigma mais que um texto e mais que um enigma devia ser uma afronta ao comodismo leitor. Às voltas com minha cambaia campanha de invenção, fui investigar as razões desse meu fraco. Nesse caso, a visada retrospectiva embaralhou mais do que ajudou. Como memorialista amnésico, trago só um punhado estrepado de sensações. Agito-as como dados, bagunçando nomes, tempos e espaços. Criança birrenta, adolescente boçal, agora senhor melancólico, entusiasta do humor e do deboche. Inconformado com a ordem e o poder. Ingenuamente. A mistificação das biografias não ajudou, mas me educou pela vergonha. Nunca mais voltarei a isso. Súbito, houve um ponto de virada. Um silêncio imenso me atravessou. Percebi que estava sozinho na trincheira. A guerra tinha acabado e fui o último a saber. Arrumei meus poucos cabelos e tentei me inventar como escritor profissional. Coitado. Entre muxoxos, afrouxando o nó de uma gravata imaginária, fiquei mais com os planos do que com os percursos. Quis falar da vida, não da linguagem. Quimera dos cafés com leite. As aventuras que tive, muitas delas, tentei as colocar na ponta duma caneta, mas o que restou do núcleo mesmo da experiência ricocheteou nas paredes da minha cabeça até se esfumar. Me faltou coragem. Ou fui subjugado pelo prazer de ver como as coisas somem. Ainda sob os influxos do meu belicismo juvenil, rosnei alto diante dos meus primeiros segundos todos os fracassos. Cão que ladra de madrugada sem ter a quem. De vez em quando, ainda hoje, acordo com a zoada dos meus dentes roendo o ar. Eu não podia voltar atrás. Não havia pra onde. Li tudo o que pude. Inclusive, me afundei de novo nos experimentais, que tanto me comoviam e ainda comovem. Dessa vez, mais pra saber como evitá-los. Os olhos cheios d’água de saudades deles. Na prosa imitei tudo que pude. Com a preguiça dos arrogantes. Eu imitei, cínico e sem nenhuma perícia. Tanto batuquei pelos teclados e não aprendi nada. O que me levou a uma decisão: sumir. Entendi que era disso que precisava pra preparar o salto. O de aceitar o risco de ser aceito. Uma preparação mais emocional do que técnica. Fingi, com muito esmero, que acreditava nisso. Saí à francesa do palco das redes sociais e do metiê. Abandonei até mesmo os amigos, companheiros da trilha estreita ao confim. Como bom bobo solitário, por muito tempo acumulei papéis de dia pras traças terem o que jantar à noite. Hoje, voltei a revisar mais uma vez o romance que germinou na terra estéril da minha tentativa de deserção experimental. Tantas vezes recusado, em prêmios, editoras, por mim mesmo. Vejo que o empenho em buscar a clareza me levou à cegueira dos encandeados. Daqui a pouco, quando o livro voltar ao estado de quase-coisa sob a viva sombra de um pé de jambo estará pronto.


