Um tempo
E depois
Alguns anos atrás decidi dar um tempo. A quinquilharia dos hábitos, inquieta, me atrapalhava o sono. Principalmente, o matraquear das teclas e a brutal fabulação, que me nublava os dias com o véu dos avoados. Decidi como um soberano generoso. Otário. Livre das lides que me povoavam, logo me vi às voltas com a saudade dos aborrecimentos que escrever me incutia. Vivi entre suspiros até que, de repente, fui tomado por uma certeza. As palavras é que deram um tempo de mim. Meus resmungos minguaram, assim como minhas gargalhadas. Comecei a falar pouco e baixo, muitas vezes sem que me entendessem. O monitor desligado refletia o perfil de alguém que se parecia comigo. Uma hostilidade mútua nos irmanava. Daí o pântano da dúvida emergiu, transbordou e começou a arrotar seus primeiros fogos-fátuos. Ao espanto inicial se sucedeu mais espanto. Depois o estranhamento. Depois mais estranhamento. Descomunal. Via o mafuá de textos notas objetos fotos quase coisas que medrou do que foram minhas mãos. Agora de uma outra pessoa. Reler diários constrangia. Não havia intimidade mais alheia. E aquela caneta-tinteiro que tinha deixado aqui, me perguntava numa recaída. E meus cadernos, projetos, rascunhos. E minhas ideias. Um dia pareceram tão promissoras. Se arrastavam pelos cantos com a agilidade das cobras. Quando as flagrava, viravam as costas pra mim, magoadas. Trazia comigo a certeza idiota de que esse rancor, uma hora, se assentaria como areia no fundo de um copo. Contra todas as evidências. Ele boiava como farelo de isopor à flor da água. Não deu mais pra esperar. Reconheci o equívoco e resolvi retomar o tempo, essa piada que nunca termina. Tentei me desculpar com uma explicação. Foram tantos arrodeios que precisei me acostumar à tontura. Grilos e um motor de gerador cantavam no momento da frase inaugural. Ruim e burra, como quem escreve em outra língua sem a dominar. A segunda, a terceira, e todas as outras surgiram do mesmo jeito. Como esta. Mesmo assim segui e sigo em frente. Ainda isto é parte da explicação, inábil e sincera, que me permite entender que volto mas a outro lugar. O que construí (foi pouco) deu lugar a um terreno baldio. A zeladoria do caos o cultivou. Ouço as palavras, os calangos, os personagens que mal inventei, ainda incompletos, rindo de mim, invisíveis, por entre folhagens e entulho. Em carreiras e saltos debochados. Me atiçam e frustram por vingança e por amor ao jogo. Está tudo certo. Me falta enxada e rastelo pra tanto mato. E me faltará. Porque começo a aceitar as dádivas do abandono. Aprendo com as ervas-daninhas e a vida exuberante de que ela faz parte. Aqui e ali a alegria laranja e vermelha de um fruto arregaçado de maduro de melão-de-são-caetano que os sanhaços vêm bicar.


